quarta-feira, 16 de outubro de 2013

# O lado obscuro de Amarna #

As imagens representadas nas paredes das tumbas e monumentos do sítio de Tell El Amarna, a antiga Akhetaton, mostram um mundo de prosperidade. O gado engorda nos currais, os silos transbordam em grãos e os tanques estão repletos de peixes. Músicos cantam para o faraó enquanto ele e sua família se banqueteiam com finas iguarias.
Mas recentes pesquisas sugerem que a vida em Amarna era uma combinação de trabalho pesado e penúria, ao menos para as pessoas comuns que tinham que carregar água, descarregar barcos e construer os grandes templos, erguidos às pressas sob as ordens de Akhenaton, o “faraó herege”.

Pesquisadores que examinaram esqueletos do cemitério dos plebeus em Amarna descobriram que muitas das crianças da cidade eram desnutridas e abaixo do peso. Os adultos apresentam sinais de estarem alquebrados por trabalho pesado, incluindo altos níveis de contuses associadas com acidentes.

Das 20 ou 30 mil pessoas que viviam em Amarna durante seu breve apogee (cerca de 15 anos) talvez 10% pertenciam à próspera elite, que Morava em vilas amplas e eram sepultados em tumbam suntuosas construídas para eles. O resto terminava seus dias no que hoje é conhecido como o cemitério das tumbas do sul, onde a maioria era sepultada em covas comuns marcadas por pilhas de pedras.
Em um artigo do periódico Antiquity, a equipe do Amarna Project relata que, ao escavar mais de 200 sepulturas das tumbas do sul encontraram apelas 20 sarcófagos. A maioria dos esqueletos estavam empacotados em esteiras de varas, uma demonstração de penúria em uma sociedade onde se considerava o sepultamento em sarcófagos como o ideal. Um dos poucos sarcófagos do cemitério é decorado com hieróglifos que não formam nenhuma palavra de fato, sugerindo que o decorador e talvez a pessoa que encomendou eram totalmente iletrados. As tumbas tampouco contem qualquer dos materiais encontrados nos sepultamentos mais ricos. As pessoas comuns de Amarna não podiam arcar com tanto.

Entre os poucos objetos encontrados nas tumbas haviam 3 miçangas em forma de hipopótamo, possivelmente usadas em vida por uma mulher ou criança como amuletos de proteção. As crianças de Amarna precisavam de toda proteção que poderiam obter, pois os esqueletos de indivíduos entre 3 e 25 anos mostram sinais de raquitismo e escorbuto, de acordo com a pesquisa que Kathleen Kuckens, da Universidade do Arkansas.

Kuckens relata também que a dentição das crianças era desgastada, sinal de elevada desnutrição. Crianças acima de 8 anos apresentam sinais de crescimento retardado, e parece que estas crianças, mesmo desnutridas, eram submetidas a um regime de trabalho pesado e castigos físicos constantes, parecido com o que é retratado no filme “Indiana Jones no Templo da Perdição”.

Os adultos não tinham uma vida muito melhor. Mais de 75% dos esqueletos estudados tinham artrite em seus membros e coluna, sugerindo trabalho pesado. Vértebras fraturadas e comprimidas eram comuns, e 67% dos esqueletos apresentam sinais de ao menos uma fratura calcificada ou em processo de calcificação, algumas vezes mostrando que eram submetidos ao trabalho mesmo quando seriamente contundidos. Pode não ser coincidência que Amarna foi edificada com o uso de uma inivaçnao recente: blocos de pedra de construção padronizados atualmente conhecidos como talatat, que pesavam cerca de 70 kg, considerados leves o suficiente para uma pessoa transportar. Uma baixo relevo, possivelmente de Amarna, mostra um homem equilibrando um bloco de talatat sobre os ombros, segurando com as duas mãos. Os pesquisadores especulam que esta prática contribuiu para o alto grau de artrite entre os trabalhadores de Amarna.

Nem todos os especialistas consideram que a sobrecarga de trabalho dos trabalhadores de Amarna era excepcional. Esqueletos do antigo cemitério de Saqqara também mostram sinais de traumas e contusões. Ainda assim, a maioria dos contingents de trabalhadores, da Antiguidade, mesmo submetidos a trabalho escravo (o que não era o caso dos trabalhadores de Amarna) apresentam graus mais baixos que os encontrados em Amarna.

Após a morte de Akhenaton por volta de 1336 a.C., Amarna foi rapidamente abandonada. Mas as tumbas do cemitério do sul permaneceram como um registro realista da propaganda que almejava construir um lugar que seria a “Casa do Regozijo” para o deus-sol vivo.


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